27 de setembro de 2013

Shabath - Por que não guardamos o sábado?

Perguntaram-me no ASK.fm recentemente: "Por que as igrejas evangélicas não guardam o 4º mandamento, o sábado?"

Respondo: 

Sua pergunta é generalizadora e cheia de preconceitos. Coloca todos os "evangélicos" no mesmo saco, como se todos, de fato, pregassem o verdadeiro Evangelho. Sugiro que seja mais específico. As igrejas protestantes não desprezam o 4º mandamento. Elas o interpretam com inteligência e sabedoria. Elas consideram o texto, dentro do contexto e seus reais objetivos/intencionalidades para aqueles dias e para hoje. Elas interpretam as Escrituras pelas Escrituras. Em resumo, não extraímos ou particionamos o decálogo em regrinhas morais e legalistas. Não olhamos para a lei como agente da salvação. Afinal, é impossível cumprir toda a Lei (ou você é tão moralmente correto e bom que cumpre toda a lei?). Ela serve para condenar o pecado e não para salvar. O cumprimento da Lei é insuficiente para a salvação e anula a graça de Cristo. Se guardássemos o 4º mandamento ou qualquer outro somente porque ele está lá, poderíamos rasgar a carta aos Gálatas que condena a prática dos judaizantes (inclusive os modernos). Para interpretar o Shabath no AT é necessário olhar para as tradições rabínicas, sobretudo para o que Jesus Cristo afirmou e fez no dia de sábado. A palavra sábado é procedente do hebraico Shabath e significa descanso. Esta é a ideia fundamental da palavra, e não o fato de ser o sétimo dia.
O Shabath era usado para celebrar cultos de festejo pelos seis dias trabalhados, pela colheita e pelas bênçãos. Deus ensinara o sobre o descanso já na criação. Deus shabateou - sim, como um verbo - ou seja, Deus celebrou, santificou o que havia terminado. Conforme se lê em Ge 2:2 “Ora, havendo Deus completado no dia sétimo a obra que tinha feito, descansou nesse dia de toda a obra que fizera”.

Segundo o Pr. Enéas Tognini, há três sábados na Bíblia: 

"O primeiro, o edênico (universal) que Deus institui ao cessar as obras da criação, mostrando que o homem deveria ter um dia para descansar das suas atividades e dedicá-lo ao Senhor (Gn 2.1-3). 
O segundo, o legal (7o dia) - o judeu da Bíblia e o de hoje guardam este dia (Êx 20.8-11). 
O terceiro, o cristão (1o dia da semana), dia em que Deus completou o plano de redenção com a ressurreição de Cristo (Mt 28.1; Mc 16.9; Lc 24.1; Jo 20.1)". 

O sábado não é um dia da semana: é um tempo litúrgico e um tema teológico. Sábado é um estado da alma em que a gente se vê sossegado, despido de ansiedades perturbadoras e não o cumprimento simplista do calendário lunar. O sábado é usado para designar o sétimo dia. O número 7 na tradição judaica significa completude, perfeição, o todo. Isso significa o desfecho de um ciclo. Sobretudo, o sábado deve ser entendido como intervalo/pausa das atividades, enfim, descanso. Se Deus descansou - esta é a lição - devemos seguir o seu exemplo.

Todavia, indico a prática da guarda do sábado. Não para aqueles que entendem que por obedecerem uma regrinha terão seu lugar garantido no céu e sim para aqueles que caem no erro do ativismo. Para os pais de família que não tiram tempo com seus filhos, aos workaholic's de plantão, aos cristãos ativistas e que estão doentes por não descansarem. Aos desobedientes, resta a Lei. Aos obedientes, a graça basta.

Paz e muita GRAÇA!