18 de fevereiro de 2014

CINCO AFIRMAÇÕES SOBRE O TRABALHO PASTORAL

"Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina". 2 Timóteo 4:2 1 – grifo nosso.

A atividade pastoral no Brasil ganha um perfil diferente de ministros em outros países por várias razões. Nosso contexto exige mais trabalho, conscientização e muitas outras barreiras que devem ser quebradas. Exige bastante “corpo a corpo” e mobilização. É um privilégio maravilhoso trabalhar numa nação onde o Evangelho de Cristo floresce. Mas também é um desafio servir num país onde 75 % da população sofre algum tipo de analfabetismo funcional (basicamente, lê, mas não interpreta corretamente[1]). Isso gera problemas que se retroalimentam e interferem diretamente no trabalho pastoral no Brasil. Obviamente, onde a maior parcela da população não valoriza a leitura – fator determinante para a compreensão da fé cristã – o trabalho pastoral jamais será compreendido na sua plenitude. 90 % dele ocorre no anonimato, sem que ninguém supervisione. E por trabalho pastoral façamos diferença entre a pastoral da igreja (exercida pela igreja local) e a pastoral na igreja (esta, exercida pelo pastor). Embora o cuidado pastoral seja dever de todo o cristão (pastoral da igreja), o pastor é a figura responsável pela condução dessa função e por presidir com diligência o rebanho de Deus, portanto a pastoral na igreja.  É disso que se trata este texto: do trabalho pastoral na igreja, pelo pastor local.

    1.   O PASTOR DE UMA IGREJA LOCAL NÃO É UM ATIVISTA RELIGIOSO
Numa sociedade desenvolvimentista, sufocada pela cobrança de resultados é compreensível que as pessoas pressionem umas das outras. Todavia, há perigos num ministério nutrido por resultados e um deles é o ativismo. É por causa do ativismo que muitos colegas do ministério pastoral, atualmente, não têm tempo para o principal: a Palavra, a família, etc. A função principal de um ministro do Evangelho é servir o povo de Deus, porém, de forma específica seu chamado é para o ensino das Escrituras. O pastor não é e não deveria ser um gerente administrativo, um "faz de tudo" que agrada a gregos e troianos, um multitarefas religioso ativista e que mal tem tempo para a família. O trabalho pastoral não deveria se resumir ao gerenciamento de tarefas institucionais. Não poderia estar condicionado apenas a eventos realizados com sucesso e ao cumprimento de metas. Segundo as Escrituras, a tarefa pastoral é altaneira, cheia de responsabilidades e exige esforço agonizante (Cl 1:28-29), entretanto em nada se assemelha ao gerenciamento corporativista de uma instituição sem fins lucrativos. O pastor não deveria ser um executivo que administra a igreja de Cristo como uma empresa. Ela é um organismo, não uma organização. É um movimento do Espírito na história. É uma rede de cuidados e que prioriza as pessoas não as estruturas burocráticas. Isso não significa que não tenhamos papéis administrativos decorrentes da personalidade jurídica da igreja diante do Estado. É necessário administrar, porém, sem substituir o trabalho pastoral essencial na comunidade. Precisamos ouvir Pedro: “pastoreai o rebanho de Deus” (1 Pe 1:5); então, já que o rebanho é de Deus e não propriedade do pastor, deveríamos pastoreá-lo com mais prudência, fazendo aquilo que o Senhor deseja. Tenho certeza que Deus não nos ordenou um ministério ativista.

     2.   O PAPEL MAJORITÁRIO DO PASTOR É O ESTUDO DAS ESCRITURAS
Muitos pastores caem no erro de fazer de tudo, menos estudar a Bíblia com zelo. Sua principal ferramenta precisa ser conhecida e manuseada afim de que o pregador não apenas papagueie o que outros já disseram. Não há problemas em repetições, todavia é preciso cavar os próprios tesouros. Somos como garimpeiros extraindo, expositivamente, as aplicações contidas nas Escrituras. Isso demanda tempo, leitura, pesquisa, memorização, registros e apresentação. Não é uma tarefa fácil. Em muitos casos 4 a 16 horas de estudo, dependendo do texto – muitas vezes mais que isso – gerando um cansaço psíquico e físico. Um pastor que não se desgaste no estudo das Escrituras será um mero repetidor de jargões e clichês. Não se tira água de uma esponja seca, assim como um pregador não falará com autoridade se não conhecer a Deus e sua vontade. Se a principal tarefa do pastor é ensinar e pregar, a maior parte do seu tempo deve ser utilizada nesta função – o estudo bíblico. Como diz a Bíblia:

“... sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite”. Salmos 1:2

“Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito. Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem sucedido”. Josué 1:8

3. A COMPARAÇÃO ENTRE AS CATEGORIAS PROFISSIONAIS E O TRABALHO PASTORAL GERAM UMA ANGÚSTIA DESNECESSÁRIA
Conheci um pastor que pregava muito mal, mas construiu um templo gigantesco. Era tido, pelos incautos, como um pastor de “sucesso” simplesmente por suas preferências herodianas. Não há nada de errado em ter estruturas, mas elas não podem tomar todo o tempo do trabalho pastoral. A comunidade deve exercer força conjunta para aliviar o pastor da preocupação com reformas, construções, adaptações e o funcionamento das estruturas. O pastor é forçado, muitas vezes, a “demonstrar trabalho” – como se a leitura, redação, pesquisa, não fosse trabalho. Enquadrar o trabalho pastoral nos EUA é mais fácil, acredito, que no Brasil. Aqui, a função é relativamente nova. Nos EUA, ou Inglaterra, por exemplo, é uma tarefa antiga e por muitos, reconhecida. Além disso, por causa da Teologia da Prosperidade e dos pregadores midiáticos muitos consideram que a tarefa pastoral é bem remunerada. É claro que não – afinal, no Brasil, a grande maioria recebe (nem sempre em dia) côngruas insuficientes para a própria manutenção. Não é o meu caso, pela graça de Deus. O conceito de trabalho pastoral num país onde a maioria dos cidadãos ganha salários medíocres para sobreviver e muitos enfrentam uma carga horária de 8 a 12 horas diárias a comparação é quase que inevitável. É compreensível que as pessoas estejam insatisfeitas com o pouco tempo que possuem para a família, lazer, etc ... Como também é inadmissível que comparem seu padrão de vida ou seu trabalho com as funções pastorais. Cada função possui seus oásis e desertos.

  4. NÓS SOMOS OS RESPONSÁVEIS POR ESSA CRISE NO TRABALHO PASTORAL
Perdi a conta de colegas que conheci no ministério pastoral e tiveram suas atividades interrompidas por conta de vários problemas: problemas de saúde como depressão, AVC, infarto; crise no casamento, com filhos; crises financeiras e muitos outros motivos que precisam ser avaliados devido à complexidade de cada um. Espero que você, ao comentar este polêmico artigo, não faça uso de palavras isoladas para dizer o que eu não disse. Por isso, sem julgamentos – este ou aquele pastor fez isso ou não fez. Não há espaço para acusações indiscriminadas aqui.
O grande problema no trabalho pastoral é a falta de cuidado e de senso de prioridade. A falta de foco. O apóstolo Paulo dizia: “Uma coisa faço ...” (Fl 3:13). Jesus não veio oferecer uma religião para dar poder e dinheiro aos interessados. Ele ofereceu um estilo de vida baseado no discipulado relacional. Nossa tarefa é investir em alguns, como fez Jesus. O grande trabalho do pastor é estudar as Escrituras e investir em pessoas, porém não é possível cuidar de todos (2 Tm 2:2). Não fomos chamados para ministérios massificados e sem propósito. Os grandes responsáveis por esse cenário que mata igrejas e líderes são os próprios pastores. Ou seja, aqueles que alimentam um ministério ativista, pensam ser semideuses ou heróis que abriram mão de sua humanidade.
Aquele pastor que abre mão do tempo com as Escrituras para tomar dez cafezinhos na casa dos irmãos. Aquele que baseia seu ministério em eventos e programas e não no cuidado mútuo. Aquele enfim que faz do seu ministério um trampolim para o auto-reconhecimento – são eles os maiores responsáveis por passarem ao rebanho de Deus uma imagem equivocada do ministério pastoral. Visitas que são muito proveitosas sempre que necessário especialmente aos enfermos e idosos, ao meu olhar, mas que não podem se tornar o foco maior. É preciso investir em alguns. É impossível um pastor cuidar de 100, 200 ou 300 pessoas de uma comunidade sozinho. Seria demagogia afirmar isso. Portanto, pastoreemos o rebanho de Deus e discipulemos alguns (Cl 1:28-29; 1 Ts 2:7,11; 2 Tm 2:2). Preguemos a Palavra com autoridade no púlpito, mas não deixemos o cuidado com a saúde, a família, tempo com Deus, com as Escrituras.

     5.   QUEM É PREGUIÇOSO COLHERÁ O FRUTO DE SUA SEMEADURA
"A felicidade e a saúde são incompatíveis com a ociosidade". Aristóteles

O preguiçoso colherá ruínas e o ocioso a destruição. Estar ocioso não é o mesmo que estar preguiçoso. Porque quem tem preguiça pode ter disponibilidade, mas falta disposição. Quem está ocioso, tem disposição, mas falta disponibilidade. Ou a disponibilidade que o indivíduo possui não é devidamente usufruída.
As duas coisas que ambos têm em comum é que a preguiça e o ócio levam ao pecado. Não é a toa que nas prisões brasileiras bandido só tem tempo para planejar crime, porque o ócio o favorece. Imagine a quem falta disposição e disponibilidade. Ociosidade e preguiça num indivíduo só geram ruína. E não calculamos os resultados disso no ministério pastoral. Você percebe um pastor é preguiçoso não pelo número de visitas que ele deixa de fazer, mas pelos sermões superficiais, vazios, sem conteúdo. Seus estudos bíblicos são repetições ecoadas há anos. Não há nada novo que saia da boca de um preguiçoso. Nada que alimente a alma. Apenas ecos papagaiados por quem não dedicou o tempo que tinha para meditar. Além, é claro, de o indivíduo demonstrar com a sua própria vida corrupta e pecaminosa, os resultados de sua ociosidade. Como disse certo escritor: "O homem ocioso é como a água parada: corrompe-se".

Não fazer o devido uso do tempo e das oportunidades são algumas das causas de um ministério infrutífero. Falta capacidade para gerenciamento da vida. Se não governar bem a família como o ministro cuidará da igreja de Deus?  (1 Tm 3:15). É preciso gerenciar tudo para que tenhamos tempo para oração, estudo, administração financeira privada, cuidado da esposa, filhos, etc... Sem isso, o pastor será mais um escravo do mercado, esmagado pela produção de resultados. A igreja que diz pregar os valores do Reino de Deus não pode compactuar com este sistema perverso de opressão trabalhista. Não pode impor ao pastor local as mesmas pressões que a sociedade impõe, injustamente, ao trabalhador secular. Nosso código de ética é celestial e a CLT não é justa com o trabalhador comum, pois, não prega os valores do Reino. Precisamos ter consciência de que Deus é Pastor responsável e cuidará, inclusive, para julgar os líderes do Seu povo. Ele não deixará o preguiçoso impune. Admiro um pastor que se esmera no estudo das Escrituras e na oração, mas não atribuo uma fagulha de louvor ao displicente, que faz de tudo, menos conhecer o seu Deus e fazê-lo conhecido. Paulo afirmava: “Nós o proclamamos, advertindo e ensinando a cada um com toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo. Para isso eu me esforço (agonizomai), lutando conforme a sua força, que atua poderosamente em mim” (Cl 1:28-29). – grifo meu.

Concluo afirmando que todo ministro é digno de seu salário e ninguém deve negar-lhe esse direito dado por Deus. “Da mesma forma o Senhor ordenou àqueles que pregam o evangelho, que vivam do evangelho” (1 Co 9:14). Todo o ministro deve ser obedecido em amor, porém cumprir seu papel ao pastorear o rebanho de Deus. “Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes, para que o trabalho deles seja uma alegria e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês” (Hb13:17). Todo o ministro deve ser um exemplo para o rebanho e esforçar-se no trabalho pastoral. Isso é bom para  si mesmo, para o rebanho e glorifica a Deus.




[1] In: Segundo dados de 2005 do IBOPE, no Brasil o analfabetismo funcional atinge cerca de 68% da população (30% no nível 1 e 38% no nível 2). Somados esses 68% de analfabetos funcionais com os 7% da população que é totalmente analfabeta, resulta que 75% da população não possui o domínio pleno da leitura, da escrita e das operações matemáticas, ou seja, apenas 1 de cada 4 brasileiros (25% da população) é plenamente alfabetizado, isto é, está no nível 3 de alfabetização funcional. Fonte: Wikipedia.org

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