6 de novembro de 2012

Lenços que curam?



A fiel Ana Maria Lima do Nascimento (foto), 41, afirmou que se curou do vício da bebida e do cigarro graças a um suposto milagre da Igreja Mundial do Poder de Deus. “Cortei a toalhinha ‘Sê Tu Uma Benção’, peguei um pedaço dela e comi”, contou ela, conforme seu testemunho publicado no site da igreja.
A toalhinha é vendida pela Igreja Mundial aos fiéis para que eles enxuguem o suor do apóstolo Valdemiro Santigo e levem para casa” Fonte: Gnotícias

Você já esteve diante de um questionamento sobre as pessoas que argumentam a necessidade da “toalhinha do apóstolo”? Já encontrou pessoas fazendo caravanas para lugares específicos a fim de encontrar tal “pastor” que faz milagres “abençoando” seus lenços?
Em resposta a uma dúvida que também pode ser a sua. O que fazer e como argumentar àquelas pessoas que se apegam ao “pregador da toalhinha” e utilizam como fundamento Atos 19:12 e ainda outros versos?

“de sorte que lenços e aventais eram levados do seu corpo aos enfermos, e as doenças os deixavam e saíam deles os espíritos malignos."

Antes de responder a essa questão, prefiro deixar alguns pressupostos como pano de fundo para a interpretação desse texto:

*Sem entrar em discussão aprofundada sobre a etimologia da palavra apóstolos e suas derivações.

1º Vivemos numa sociedade que tem suas raízes religiosas na pajelança, ritos africanos, catolicismo romano e muito sincretismo religioso, eivado de misticismos, símbolos e representações visuais (tais como as simpatias tão estimadas por brasileiros). Ou seja, nosso povo historicamente tem um "pezinho na macumba";
2º Vivemos numa Era imediatista (quer resultados no culto prazo - espiritualidade instantânea);
3º Vivemos numa atmosfera que supervaloriza a imagem (o importante é parecer, não é ter ou ser, por isso o apego aos símbolos visuais);
4º Vivemos numa cultura extremamente pragmática (o importante é o que funciona, não o que é correto);

Portanto, quando as pessoas leem as Escrituras, o fazem com esses pressupostos embutidos em sua cosmovisão. Isso tudo explicaria, sociologicamente o apego ao paninho, rosas e sabonetes. Os “feiticeiros” evangélicos se aproveitam desses caminhos para fomentar práticas místicas que coloquem o cristão em contato com o sagrado, mas geralmente não pregam as Escrituras – como o diabo, eles fazem uso dela. Mt 4:1-11
O primeiro argumento além dos pressupostos acima, deve ser sobre o ministério apostólico. Segundo Warren Wiersbe:

"Ao longo da história bíblica, encontramos três períodos especiais de milagres: (1) o tempo de Moisés; (2) o tempo de Elias e de Eliseu; e (3) o tempo de Jesus e de seus apóstolos. Cada um desses períodos durou menos de cem anos, e é evidente que nem todos os milagres foram registrados (ver Jo 20:30, 31)". 
Muitos milagres realizados POR DEUS através dos apóstolos foram circunstanciais, a fim de autenticar o ministério apostólico diante da comunidade primitiva. Para alguém ser apóstolo (o que não é o caso dos camaradas que reivindicam essa prerrogativa) era necessário ter uma experiência visual e relacional com o Senhor Jesus, ser chamado exclusivamente para este ofício e apresentar o ministério apostólico à sociedade daquele tempo através de milagres e maravilhas. Jesus só fez milagres para mostrar que era o Messias prometido nas Escrituras (embora não tenha curado a todos, como prometem os "curandeiros" evangélicos.) e para glorificar o Pai. Os apóstolos os realizaram, porque Deus desejou fazê-lo naquelas circunstâncias a fim de provar o ministério apostólico diante da sociedade.

Leiamos Atos 19:11-12:
"11 E DEUS pelas mãos de Paulo fazia milagres extraordinários, de sorte que lenços e aventais eram levados do seu corpo aos enfermos, e as doenças os deixavam e saíam deles os espíritos malignos."

Veja que o texto acima afirma que Deus e não o apóstolo fazia milagres. Também, isso autentica o ministério apostólico de Paulo para os irmãos daqueles dias e para os nossos também.
Eu pessoalmente não tenho dúvidas de que Deus possa realizar o mesmo hoje em dia, ou seja, curar de vários modos diferentes (mas isso seria uma experiência pessoal de alguém e não uma prática coletiva). Todavia, não podemos fazer uma doutrina, prática litúrgica ou sistematizar uma receita de milagres a partir de alguns versículos isolados de seu contexto e propósito.

Também a prática de adicionar símbolos visuais em curas faz mais mal do que bem, visto que a Fé não depende dos elementos materiais, Hb 11. Isso vale para o copo com água, lenços e outras representações místicas. No máximo, a Bíblia autoriza o uso do óleo (Tiago 5:14ss), que não faz nada além de representar a unção, escolha de Deus. É a oração da fé que cura o enfermo, na autoridade de Jesus Cristo e não o óleo - que dirá o pano? Além disso, esta salvação do enfermo acompanhada pela confissão de pecados (tal prática não é comum nos cultos neopentecostais que utilizam o “paninho da cura”).

Não é aconselhável incentivar o uso do “lenço mágico” em nossos dias, pois, isso ofusca a glória de Deus e a mediação de Jesus Cristo, nosso Sumo Sacerdote que é a "ponte" para as nossas orações. Isso bastaria! Portanto, não vejo possibilidades de resolver essas questões senão com estudo da Palavra e discipulado. A conscientização bíblica fará o restante. Como disse Lutero: "Eu não fiz nada, a Palavra fez tudo".

As pessoas que se apegam ao "apóstolo da toalhinha" precisam ser ensinadas a discernir a cultura (Rm 12:2) e verificar os malefícios que a religiosidade brasileira trouxe à interpretação do Evangelho. Por fim, o que precisamos fazer com mais profundidade e excelência hoje em dia é: "prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino." II Timóteo 4.2
Não vejo outro caminho para nossa vulnerável teologia evangélica brasileira senão o discipulado.
No amor Daquele que não confunde.

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