30 de outubro de 2012

Que amor é esse? O Pai pródigo. Lc 15:11-32



“Deus deixa depressa sua ira, mas nunca se arrepende do seu amor.” C. H. Spurgeon

Deus ama você! Quem ama aprende a oferecer. Deus deu; e deu de si mesmo enviando seu único filho para morrer na cruz. Ele entregou tudo de si para o sofrimento mais cruel de todos os tempos: a crucificação. Jesus foi crucificado porque Deus nos amou, quando estávamos mortos em nossos delitos e pecados. Deu-nos vida em Jesus Cristo (Efésios 2).

Leia a primeira carta de João 4:8. Você chegará a conclusão de que Deus é amor! Ama-nos com o amor ágape e profundo; amor entregue e verdadeiro.  B. Manning, no livro “O obstinado amor de Deus”, já dizia:

"Nenhum pensamento o pode conter; nenhum vocábulo o pode exprimir Ele está além de tudo o que possamos racionalizar ou imaginar."

Deus lhe ama mesmo que o rejeite – porque ele ama o mundo. Seu amor é cósmico, sem distinção e é abundante. E mesmo que um dia você o tenha rejeitado, ele criou meios para atraí-lo (Jr 31:2). Deus lhe ama muito!

O amor de Deus não é como o nosso. Amamos até certo ponto. Quando as pessoas nos machucam, deixamos de amar. Quando somos rejeitados, interrompemos as afeições de amor. Criamos bloqueios no relacionamento, porque nosso amor pelas pessoas vai até um limite específico. O amor de Deus não! Seu amor por nós é ilimitado. Erramos, “pisamos na bola” todos os dias, ofendemos sua glória presente em nós pelo Espírito Santo e nem sempre fazemos o que Ele deseja. Mesmo assim, Ele nos ama prodigamente. 

Conforme assevera Philip Yancei, em seu livro Maravilhosa Graça:

“Não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais, e não há nada que possamos fazer para Deus nos amar menos”

Esta reflexão está baseada no Evangelho segundo Lucas: o Evangelho da economia de Deus. O Evangelho das perdas e ganhos. O Evangelho das coisas perdidas e encontradas. O Capítulo 15, sem dúvida, é principal neste assunto. É o capítulo da ovelha perdida, do dinheiro perdido e do filho perdido. Leia-o atentamente, de maneira contemplativa e meditativa.

 “A mensagem deste capítulo pode ser resumida em três palavras: perdido, encontrado alegria. Jesus usou essas parábolas para refutar as acusações de escribas e fariseus escandalizados com seu comportamento. Já era problemático Jesus receber de braços abertos esses marginalizados e ensiná-los, mas chegava ao cúmulo de comer com eles! Os líderes religiosos judeus não haviam entendido que o ‘Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido’ (Lc 19:10). Mais do que isso, não conseguiam enxergar que eles próprios estavam entre os perdidos”. (Warren Wiersbe, 2007)

Jesus ensinava através das parábolas. Um recurso retórico muito comum em seus dias. Sem dúvida nenhuma a parábola do filho pródigo é a mais conhecida do Novo Testamento. Ela possui cinco personagens: O Pai que representa o Deus da Graça; O filho rebelde que representa o pecador arrependido; o filho mais velho que representa o povo de Israel que possuía a tradição judaica; O criado que dá o relatório ao filho mais velho no verso 27 e o patrão a quem o filho rebelde se agregou. V. 15.

Eu discordo que esta parábola deve levar o título de “Filho Pródigo”. Ele deveria se chamar “O Pai Pródigo”. Um título deveria resumir o sentido do texto. Mas o título deste texto não faz parte do manuscrito sagrado original, portanto é melhor conhecer este texto como a mensagem do amor do Pai. Prefiro entender que ele fala do Amor de Deus, que é pródigo, esbanjador e generoso. Deus é pródigo! Deus é esbanjador! “Deus é exagerado para nós” – Rev . Atílio Fernandes (In memorian).

Pródigo segundo dicionário Aurélio, significa: “1- Que despende com excesso; dissipador, esbanjador. 2- Que dá, distribui, faz ou emprega profusamente e sem dificuldade; 3 - Generoso, liberal”. – assim é a forma como Deus ama.

 Aprendemos algumas lições com este texto:

Primeiramente, o amor do Pai é Pródigo porque permite que o filho cometa erros. Vv. 12-19
12 O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Repartiu-lhes, pois, os seus haveres.
13 Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente.
14 E, havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a passar necessidades.
15 Então foi encontrar-se a um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos.
16 E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam; e ninguém lhe dava nada.
17 Caindo, porém, em si, disse: Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!
18 Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti;
19 já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados.

Vivemos dias que a geração Z (os que nasceram na metade da década de 90) clama por limites. São superprotegidos. É uma geração mimada e que não ouve um NÃO dos pais. Por exemplo, os pais que não deixam a criança brincar ou correr porque sabem que cairão e talvez se machuquem.
O pai da parábola faz diferente. Ele sabe educar e demonstra sabedoria ao expor o filho ao erro, à queda. Ele não o protege das suas decisões, nem mesmo das consequências. Embora o pai soubesse que o filho cometeria erros (pois conhecia seu temperamento e tendências de conduta), mesmo assim não o priva do sofrimento vindouro. O Pai, conhecendo sua imaturidade prepara o cenário do perdão!
Da mesma forma é Deus quem prepara o roteiro da nossa salvação. A nossa conversão a Jesus é iniciativa dEle e não nossa (Ef 2:8). Ele nos permite errar para que percebamos nossa fragilidade e que nosso lugar é Nele (Nele nos movemos, vivemos e existimos ...). O Pai nos ajuda a compreender que nossas decisões, muitas vezes, são precipitadas e então nos permite cair no erro. Afinal, o amor autêntico disciplina (Hb 12). Robert Horn afirmou à respeito do amor de Deus:

“O amor de Deus é sempre sobrenatural, sempre um milagre, sempre a última coisa que poderíamos merecer”.

E ele nos ama inclusive permitindo que comamos do “fruto proibido”. Seu amor não é cego! Ele nos ama porque permite que cometamos erros – é um amor paciente e longânimo, mas também disciplinador e que impõe limites.

O Pai desta parábola é a imagem do coração de Deus! Vejamos os fatos ocorridos na parábola:

1 Disse-lhe mais: Certo homem tinha dois filhos.
12 O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Repartiu-lhes, pois, os seus haveres.
13 Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente.

No verso 13 – O garoto toma uma atitude precipitada e deseja gastar a herança do Pai. “O menino está determinado a fazer do seu jeito. Então, finalmente, o pai lhe dá sua parte da propriedade, e o menino reúne todos os seus bens e toma seu caminho. No começo, ele tem certeza de que ele fez a coisa certa. Ele aluga uma casa com uma excelente vista e o faz com gosto. Começa a fazer amigos em toda parte, de ambos os sexos. Ele gasta dinheiro com uma mão generosa, e tenta tudo e qualquer coisa, especialmente aquelas coisas que haviam sido proibidos ele”. (Ray Stedman)
Até que o garoto perdido se vê no chiqueiro com os porcos, pois havia perdido toda a herança do Pai.

No chiqueiro, com uma bolsa vazia e uma barriga vazia, ele começa a fazer um balanço de sua vida vazia”. (Ray Stedman)

A atitude do filho é a busca pela liberdade! O filho perdido declararia: "Para mim liberdade significa poder fazer o que eu quero fazer" - e o pai calmamente responderia: "para mim a liberdade significa que você deve tornar-se o que você deveria ser”. Não é assim que acontece com muitas pessoas? Querem uma suposta liberdade para fazer as coisas do seu jeito e “quebram a cara”?  

Há ainda uma segunda razão pela qual o amor de Deus é esbanjador e além da nossa compreensão moral:

O amor do Pai é pródigo porque não é baseado no merecimento. Vv. 20-22

Geralmente, amamos quando somos amados. É difícil amar quando somos rejeitados. Se você que é pai tivesse um filho que o trocasse por dinheiro e liberdade, como lidaria com o sentimento de rejeição? Fazemos isso com Deus. Trocamos sua presença por futilidades e uma suposta “liberdade”, como fez aquele filho rebelde. O Pai, no entanto, o vê, se compadece, corre em sua direção o abraça e beija (v. 20b).

“Deus ama a cada um dos seus como se houvesse apenas um deles para amar”. J. Blanchard

Amor relacional e individual. – Deus nos ama não porque nos vê como massa e multidão; não vê o coletivo. Enxerga-nos individualmente e nos oferece uma identidade. Somos filhos, cada um com um nome e uma identidade específica. Ele tem compaixão de nós, corre em nossa direção o tempo todo, buscando-nos em nossa perdição – nos dá o seu abraço de misericórdia e um beijo de afeição!
“Levantou-se, pois, e foi para seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai o viu, encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou”. V. 20

Veja que a confissão do Filho não é baseada no merecimento. V. 21

“Disse-lhe o filho: Pai, pequei conta o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho”.

O menino havia perdido o direito de ser filho quando pediu a herança, segundo o costume daquele tempo. Isso significa que ele foi até o pai sem se justificar e sem argumento algum para requerer sua filiação. Os que se achegam a Cristo, vão da mesma maneira – injustificáveis (Rm 5:1).
Perceba ainda, o amor do Pai revelado no texto:

O “porém” do Pai. “O pai porém”, diz o texto. V.22

“O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e alparcas nos pés”

A conjunção adversativa indica que há uma interrupção no texto. O Pai poderia recebê-lo como um escravo, castigá-lo, humilhá-lo, dar-lhe uma lição moralista, uma punição severa ou declarar toda a raiva acumulada com a rejeição do filho – não! O Pai, porém, o honrou como um filho legítimo. Ofereceu-lhe:
  • Melhor roupa: Sinal de filiação (os escravos e empregados não utilizavam a melhor roupa).
  • Um anel no dedo: como sinal de autoridade (digno de um proprietário).
  • Sandálias nos pés: sinal de honra (os escravos não utilizavam sandálias).
  • Um novilho cevado: Sinal de celebração (somente para um convidado especial).

 “Se o rapaz tivesse sido tratado de acordo com a lei, teria havido um funeral, não um banquete”, assevera o biblista Warren Wiersbe.

Veja como Deus lhe ama! Você chega sujo e maltrapilho e ele o trata como um príncipe. Você e eu sabemos que somos rebeldes. “Todos pecaram e estão separados da Glória de Deus” (Rm 3:23).Temos no fundo do nosso coração um desejo de seguir o nosso próprio caminho e esbanjar a saúde, riqueza e o tempo que temos nas coisas do mundo. Quantas vezes Deus nos curou e nos recebeu de volta sem uma palavra de condenação? Quando chegamos a Ele, dizendo: "Pai, não somos dignos de sermos seus filhos”, ele responde com um abraço envolvente e esbanjador.

Ou seremos escravos de um mestre ou filhos de outro. Você pode chegar até Jesus hoje e dizer: “Pai, eu estraguei tudo e não sei como concertar meu erro. Ajuda-me.” O Pai o ajudará, porque o seu amor é pródigo, pois não se baseia no merecimento ou na autojustificação humana. 

Concluímos ainda uma terceira preciosa lição extraída dessas verdades:

O Amor do Pai é pródigo porque procura conciliar até os “filhos mais velhos”. V. 28b

“Mas ele se indignou e não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele.”

Os filhos mais velhos, aqui na parábola, são como os Fariseus nos dias de Jesus. Hoje são os cristãos acomodados num cristianismo egoísta e moralista. Falta amor para os “filhos mais velhos” do cristianismo. Há muitos que vivem a vida cristã há décadas sem evangelizar e pregar aos perdidos. Warrem Wiersbe comenta ainda sobre este texto:

“É bastante sugestivo que Jesus atraía pecadores, enquanto os fariseus os repeliam (o que isso revela sobre as igrejas de hoje?). Os pecadores procuravam Jesus não porque fazia o que queriam ou porque dizia o que gostavam de ouvir, mas porque cuidava deles. Entendia suas necessidades e procurava ajudá-los, enquanto os fariseus os criticavam e se mantinham distantes (ver Lc 18:9-14). Os fariseus tinham conhecimento da Lei do Antigo Testamento e desejo de manter pureza pessoal, no entanto, não tinham amor pelas almas perdidas”.

O filho mais velho tinha um comportamento irrepreensível. Trabalhava arduamente, obedecia a seu pai, não envergonhou sua casa nem sua família. No entanto, obediência e diligência não são únicas provas de caráter. Ele quebrou os dois mandamentos fundamentais: amar a Deus e ao próximo. Não conseguia perdoar seu próprio irmão (v. 28) – Se encheu de raiva pelo irmão e pelo pai.

O irmão mais velho representa os religiosos que observam o exterior, mas não enxergam o interior das pessoas. Tal como o profeta Jonas, o irmão mais velho fazia a vontade de Deus, mas não de coração (Jn 4). Para o filho mais velho, o filho perdido representava uma ameaça à sua posição de “filho obediente”. Ele conseguia conversar amigavelmente com um servo, mas não o fazia com seu Pai e seu irmão. Portanto ele representava os Fariseus, que baseavam sua salvação nas boas obras e se consideravam injusto que Jesus pudesse perdoar e aceitar pecadores. Jesus, aqui, dá uma lição nos religiosos.
"Eu nunca perdoo!", disse o general Oglethorpe a John Wesley, o qual, por sua vez, respondeu: "Então, senhor, espero que nunca peques".

Lembremo-nos da citação do poeta George Heberth:
“Aquele que não perdoa, destrói a ponte por onde ele mesmo tem de passar”.

Será mesmo que a religiosidade humana pode se tornar ferramenta exclusivista para banir o perdido da graça? Este texto nos ensina que isso acontece desde os tempos antigos. Portanto, preciso anunciar o amor de Deus aos filhos “mais velhos” (os que já fazem parte das estruturas da fé) e aos “filhos perdidos” (os que mesmo sendo chamados, esbanjam suas vidas no mundo). Veja como o amor de Deus é pródigo, esbanjador e imensurável.

Deus é o pai que correu ao encontro do filho perdido quando este chegou em casa manquejando. Deus chora por nós quando a vergonha e o ódio de nós próprios nos paralisam. Deus nos ama como realmente somos: quer gostemos disso, quer não; e nos chama, como chamou a Adão, para sairmos de nosso “esconderijo seguro”. Portanto ...

a) Se você é representado pelo filho perdido
     
Caia em si - v. 17 “tendo caído em si”
Talvez, hoje, seja necessário você olhar para dentro de si. Perceba sua miséria, fragilidade e pequenez. Discirna sua autoincapacidade de se salvar e que seus impulsos o levarão para o prejudicarão. Discirna suas decisões precipitadas, seus erros e planeje sua mudança.
Planeje mudar - v. 18 “levantar-me-ei”
Hoje é dia de mudança. É dia de perceber que o pai lhe ama. O Pai tem um amor esbanjador. O pai pródigo quer um acordo com você. Um relacionamento baseado na graça. Você vem a até Ele sem nenhuma justificativa, sem qualquer sentimento meritório e ele responde com a aceitação e perdão. Mais que isso: Deus lhe honra com galardões inesperáveis e surpreendentes, Vv. 22-23.
Não viva pela culpa, mas pelo amor!

 b) Se você é representado pelo filho mais velho, vv. 25-30

Não seja pedra de tropeço para os pequeninos do Reino. Jesus asseverou que é melhor amarrar uma rocha no pescoço e se atirar no oceano, que ser motivo de escândalo para o perdido, Mt 18:6. Não seja obstáculo para a entrada dos arrependidos no Reino. Pare de viver do passado e aproveite a festa! Como escreveu B. Manning:

"Venha para a Festa! Quando os fariseus saem de cena e os perdidos chegam, é tempo de celebração do amor de Deus! 

"Fé é a coragem de aceitar ser aceito."

Finalmente, os patrões agregadores estão por aí, oferecendo falsa ajuda, v. 15. Ninguém que queira ajudar irá mandá-lo guardar porcos (representavam impureza no judaísmo). Ou seja, ninguém que queira seu bem lhe oferecerá vícios, luxúria, maus conselhos e propostas ilícitas. Olhe para o Pai de Amor! Quero convidá-lo para uma história de reconciliação com o Pai. Ele talvez lhe diga hoje: “não importa como você começa, e sim como termina a vida. Eu o escolhi antes da fundação do universo e você é meu filho. Nada o separará do meu amor esbanjador por você!”

Um comentário:

  1. Parabéns pela reflexão... Deus continue usando sua vida para edificar outras através deste blog.

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