18 de setembro de 2012

Constatações e propostas para missões transculcurais


Quando refletimos sobre missões, precisamos evitar grosserias, argumentos tendenciosos, radicalismos e interpretações equivocadas. Deste modo, anseio ser compreendido nesta reflexão. Meu desejo é lançar luz sobre algumas questões e enuclear algumas considerações sobre a tarefa missionária da igreja. Precisamos constatar os valores e as atuações que balizam a igreja de Cristo, falo sobretudo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. Muitas igrejas não avançam (creio) porque têm problemas profundos na questão dos valores missionários e eclesiológicos. A falta de uma visão clara e uniforme sobre a missão e a natureza da igreja pode destoar a caricatura da IPIB, por exemplo. Perdemos aos poucos o fervor missionário que fez a “igrejinha dos milagres” se expandir pelo Brasil no início. Preocupo-me, sobretudo com a questão do nacionalismo missiológico, visão equivocada que afirma que a prioridade da ação da igreja é o raio geográfico onde ela está implantada, ou o Brasil – em nosso caso. Reconheço que como jovem pastor e que possui pouca experiência frente a tantos admiráveis ministros da nossa denominação (e que podem escrever com mais propriedade sobre o assunto), é preciso fazer estes apontamentos despido de qualquer presunção que se assenhoreia da verdade absoluta e irrefutável. Ficarei feliz se este texto gerar reflexão, discussão e ação.

- É preciso tomar cuidado com a leitura radicalmente nacionalista da missão – Não há fundamento bíblico para assegurar que a missão transcultural é menos importante que a nacional. Não podemos fazer uma sem a outra, pois não há base na teologia bíblica para alicerçar o desprezo por missões transculturais. Atos 1:8 “E sereis minhas testemunhas ...” deve ser lido através de uma lente holística, ou seja: Jerusalém é importante (epicentro da missão centrífuga), bem como a Judéia e Samaria e os Confins da Terra, são – numa perspectiva teológica, geográfica, cultural e etnolinguística. Afinal o culto oferecido a Jesus Cristo é multicultural – Ap 5 e 7. Não há espaços para o nacionalismo missiológico na leitura bíblica.

- precisamos aprender com a história que o nacionalismo gera a morte: Israel negligenciou sua missão de ser benção para todas as nações (Gn 12; Sl 57; Sl 96). No NT a igreja era um movimento (At 2); tornou-se um monumento/instituição com a institucionalização da igreja e fusão com o Estado no Século IV. Apesar disso, movimentos paralelos dentro e fora da igreja institucionalizada caminharam na direção missionária e se recusaram fazer uso do cristianismo como instrumento de manipulação das massas, religiosamente marionetadas pelo Estado. A igreja atual precisa, portanto, resgatar o fervor missionário dos primórdios e buscar o amor pelos perdidos evidenciados nos movimentos históricos, tais como no pacto de Lausane, o Pietismo, o Puritanismo e não menos importante, o movimento Moraviano, liderado pelo conde Nicolau Von Zinzendorf. A história confirma que o nacionalismo gera morte, pois a essência do Evangelho é multicultural. Ao consultar o texto do sul africano de David Bosh “Missão Transformadora” nota-se, dentre muitas, a seguinte preocupação: Não podemos nos esquecer de que muitos movimentos missionários na história exportaram o Evangelho, mas também traços culturais, além de modelos eclesiológicos. O continente Africano, por exemplo, sofreu com a influência ocidental/oriental e com a entrada de outras correntes religiosas e culturais. No Brasil não foi diferente, pois recebemos características litúrgicas, traços culturais e maneiras de enxergar missões na Bíblia. O nacionalismo é uma equívoco missiológico, visto que não recebemos essa herança, antes ela é fruto do individualismo tão presente na cultura hipermoderna. As relações das pessoas em nossa cultura baseiam-se mais no hedonismo (busca pelo prazer), individualismo e consumismo e não podemos transportar essas ideologias para a missiologia.

- A missão é de Deus e não pode ser xenofóbica. Xenofobia é pecado, pois o amor de Deus pela humanidade é cósmico e multicultural. Ele “amou o mundo” Jo 3:16. Através dos eventos da revelação, encarnação, redenção (cruz), ressurreição, ascensão, pentecostes e parousia (volta de Jesus Cristo) as Escrituras afirmam a iniciativa divina para alcançar o homem. Se Deus planejou que a igreja fosse agência do Reino para espalhar as boas novas entre os povos, não podemos deixar de nos sujeitar obedientemente à sua vontade Soberana. Desejar o Evangelho apenas ou prioritariamente para o Brasil é um “crime” teológico e histórico. A Missão é integral também no sentido de servir o mundo todo e ser para todas as pessoas, para a Glória de Deus.

- Não se deve confundir assistencialismo com missão – É muito importante valorizar as iniciativas de inclusão social e a diaconia. Todavia, a igreja de Cristo não é autarquia governamental para tapar as brechas irresponsáveis deixadas pelo Estado. Fazer missão é a essência da igreja e se ela deixa de fazê-la, deixa de ser igreja. A missão acontece quando levamos o Evangelho. Afinal, o Evangelho liberta, restaura e salva integralmente todas as conjunturas do ser humano – cremos. O Evangelho restaurou a vida do cego e mendigo Bartimeu (Mc 10: 46-52); Reparou a integridade do rico Zaqueu (Lc 19) e devolveu a dignidade da mulher pega em adultério (Jo 8:1-11). Portanto, o Evangelho e não o assistencialismo, continua restaurando (do grego katartizo, Cl 1:29, Mc 1:19) cada pessoa, como ocorreu comigo, por meio do discipulado cristão. Tive pai alcoólatra, dependente químico, morei em favela, sem água encanada, sem energia elétrica ou saneamento básico e o Evangelho (não o assistencialismo) restaurou todas essas questões através do trabalho do Espírito Santo, mediante as Escrituras em minha consciência. Afinal, não há história trágica que Cristo não possa transformar para a Sua Glória.

- Os equívocos sobre a prática missionária acontecem porque refletimos, frequentemente, mais sobre os programas do que sobre a natureza da igreja.
Refletimos muito sobre revitalização de igrejas, modelos eclesiológicos que funcionaram em determinados contextos, pacotes estratégicos para levar a igreja à expansão numérica e qualitativa, mas não temos dado devida atenção ao tema central da questão que é a natureza da igreja. Ela foi deixada para Glorificar a Deus e cultuá-lo multiculturalmente, amando ao próximo e portanto, fazendo discípulos de todas as etnias. Uma coisa leva à outra: Glorificaremos a Deus se cumprirmos o propósito para o qual fomos criados: Amar a Deus e as pessoas, anunciando o Evangelho sem distinção.

- Enfim a Soberania de Deus não anula nossa responsabilidade como igreja – O apóstolo Paulo tinha o desejo de plantar uma igreja na Espanha (Rm 15:24 e 28) e para isso apresenta suas convicções teológicas na carta aos Romanos. Ela afirma a Eleição, a Soberania de Deus e a importância de Israel no plano salvífico. Entretanto, em Romanos 10:12-15 o maior missionário da história da igreja torna evidente que a Soberania de Deus não anula a responsabilidade humana para anunciar o Evangelho e não torna Israel uma nação exclusiva diante de Deus. Ele deixa exposto para a igreja Romana que a prioridade eram aqueles que nunca ouviram falar do Evangelho!

Qual a proposta para minimizar esses equívocos?
Além das propostas e valores discutidos acima e muitos outros que não poderiam ser explorados neste espaço, precisamos pensar nas estratégias que poderiam ser elaboradas para o desempenho de missões de maneira mais plausível e escriturística. Se nossa tarefa principal como igreja é anunciar o Evangelho, então há algo errado conosco? Temos missionários no exterior, mas a grande maioria está no Brasil. As iniciativas das igrejas locais com uma visão missionária saudável são o remanescente da IPIB que salvará a igreja do congelamento estatístico, em minha opinião. São igrejas que plantam igrejas e também se importam, de fato, com os que nunca ouviram do Evangelho. Muitas já possuem uma Secretaria de Missões interna ou Conselho Missionário e se comprometem com a evangelização dos povos não alcançados, além de iniciativas evangelísticas locais. Todavia, não basta o esforço individual de alguns. Precisamos, como líderes e formadores de opinião, incentivar missões transculturais, tanto quanto incentivamos missões nacionais. Isso se dá no púlpito das igrejas dominicalmente e não esporadicamente em Conferências Missionárias. A tarefa de levar a igreja ao avanço missionário é nossa, pastore(a)s e líderes. Afinal, o Evangelho está bastante disponível no Brasil também através de igrejas irmãs, embora muitos povos (etnias) ainda não ouviram o Evangelho de maneira honesta e profunda. Temos menos de 2000 missionários no campo transcultural e isso é vergonhoso para a igreja brasileira, que possui recursos e tem potencial majoritário no cenário mundial para enviar missionários. Temos gente treinada, diversidade racial e recursos financeiros. Não há desculpas para não enviar discipuladores (1 Tm 2:4; Mt 28:19).



E as agências missionárias? As agências missionárias e as secretarias criadas pelas denominações não deveriam, essencialmente, fazer missão. Essa é a tarefa da igreja local e não prerrogativa das estruturas denominacionais. Contudo, as agências servem muito bem colaborando no treinamento, acompanhamento dos missionários e captação de recursos para o campo transcultural, dentre outras funções. Muitas igrejas locais investem recursos em agências missionárias interdenominacionais porque nossa denominação ainda não formatou uma proposta mais específica, como fez a IPB por exemplo, ao instituir a APMT (Agência Presbiteriana de Missões Transculturais). Precisamos estimular os crentes a fazer discípulos desde o vizinho da rua até os confins da terra.

Conheça  a Missão Avante: www.missaoavante.org.br

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