5 de abril de 2012

Carisma e o caráter: entre o ser e o parecer


Foi-se o tempo em que "Ser" era o bastante”[1]. “Ser” ou “Ter” não são objetos de busca pela sociedade atual. É o “parecer” que está em evidência. Há muitos que não se preocupam mais com a integridade, idoneidade ou caráter do “Ser”; Existe outros que não se importam mais com a busca frenética por “Ter”, embora vivamos no ápice cultural do materialismo que vem perdendo espaço para o exibicionismo. Preocupam-se, entretanto, com a aparência, a casca, o rótulo, a exterioridade; de modo que as pessoas não acharam a felicidade hedonista garimpada nos bens materiais e futilidades para preencherem seus vazios emocionais. Tampouco se interessaram pelo interior, pelo conteúdo ou pela natureza do caráter. E essa reflexão introdutória nos leva ao entendimento de que a igreja atual, sobretudo os líderes, acabam vivendo de aparência e satisfazendo essa cruel realidade da sociedade teatral.  Vivemos num tempo em que a admiração pelo carisma[2] triunfa sobre o caráter. E que a imagem tornou-se mais importante que o produto; a figura mais valorizada que a substância; a forma  mais admirada que o conteúdo, visto que “Ser” já não é o bastante, “Ter” já saiu de moda ou apenas serve para sustentar que o importante é viver de aparência.
               Jesus asseverou: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus”- Mt 5:8. Não são poucos os textos onde Jesus condena a vivência da fé como mecanismo de autopropaganda: “E, quando orardes, não sejais como os hipócritas; pois gostam de orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam a sua recompensa.” (grifo meu) Mt 6:5.
               Em João 3 Jesus deixou claro para Nicodemos que ele precisaria nascer de novo, pois vivia uma religiosidade aparente e desconectada com o Reino. Nicodemos era clericalmente exemplar, possuía status e aparência religiosa v. 1. Todavia era homem que vivia de aparência e não poderia deixar de admirar apenas o que motivava sua consciência, pois a “boca fala do que o coração está cheio”. Então Nicodemos admira Jesus, mas não o segue. Seu compromisso com o Salvador se dá na calada da noite (v.2), pois quem se preocupa com a aparência não quer ser visto como seguidor do homem da periferia, da Galiléia: “Outros diziam: Este é o Cristo; mas outros replicavam: Vem, pois, o Cristo da Galiléia?” Jo 7:41  Então Jesus ensina àquele homem que sua religião não bastava, pois de nada adiantava parecer e não ser discípulo. Ensina-o a nascer de dentro pra fora, pois quando a experiência de fé acontece apenas de fora pra dentro o conteúdo do caráter não é alterado, mas apenas as personificações e performances exteriores do carisma.
               Gente que vive de aparência é hipócrita, engana-se a si mesma e não passa de atriz e ator da fé. O burocrata quer ficar bem diante das pessoas. É fariseu, politicamente correto. Tal como Nicodemos que admira a autoridade de Jesus, todavia não se sujeita a ela. É capaz de fazer declarações fantásticas sobre Jesus, mas não tem compromisso algum com o Mestre. Nosso testemunho diário com Jesus, portanto, deve surgir das experiências autênticas que ocorreram no interior do coração e não das pressões sociais que nos empurram para a religiosidade estéril. Deve, antes, nascer do nosso relacionamento com Deus no quarto secreto de oração e não das exigências impostas pela sociedade da religiosidade publicitária.
               A falta de honestidade, a inconstância, a inadimplência e a superficialidade (dentre outras aberrações) dos evangélicos no cotidiano da vida secular são repulsivas. Não é possível recolher as mãos para pagar impostos e estendê-las para orar. Erguer a voz para adorar no ajuntamento para o culto e estancá-la para denunciar o pecado e a injustiça. Orar em público para Deus e deixar de adorar no secreto. Parecer e não ser. Tudo isso é vaidade e engano. E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” - Tg 1:22. Afinal, a vida do cristão nos bastidores é tão formidável quanto no palco da vida ou no exercício da fé.
                Nem tudo é o que parece. Jesus afirmou corajosamente que os fariseus religiosos eram como “sepulcros caiados (pintados)”, bonitos por fora e podres por dentro (Mt 23:27). Como líderes, cristãos e servos de Jesus Cristo não podemos aceitar que a cultura do carisma em detrimento do caráter prevaleça como estilo de vida. E que a aparência seja confundida erroneamente como essência. É possível haver uma coerência entre carisma e caráter, desde que sigamos o exemplo de Jesus; isso não significará ser necessariamente popular (Jo 6:60-67), mas íntegro e verdadeiro diante de Deus. E crescia Jesus em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens”. Lc 2:52           
            

[1] Referência ao livro título do livro do pastor Carlos Queiroz, “Ser é o Bastante” publicado pela editora Ultimato. Neste livro o autor faz uma bela exposição das bem aventuranças de Mt 5:1-12.
[2] Carisma aqui não é utilizado no sentido teológico, carisma = dom ou variante do grego Káris que significa graça. Carisma aqui se refere ao pensamento do indivíduo carismático, simpático, politicamente correto e num sentido pejorativo. Que vive para agradar os outros e não a Deus.

3 comentários:

  1. Parabéns pelo texto amor! Vem de encontro com as necessidades atuais da Igreja em geral e nos desafia a seguirmos a vontade de Deus de maneira plena!

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  2. Rev. Thiago, muito bem explanado o texto e certamente assim como impactou-me a rever conceitos e fazer um feedback certamente alcançará inúmeras pessoas que de forma privilegiada tem acesso ao seu blog.
    Que nosso Deus continue ampliando seu conhecimentos e iluminando-o nas matérias postadas e na condução da obra.

    Forte abraço!


    Patrício Augusto S. C. Becker
    Igreja Presbiteriana Renovada
    Presidente Venceslau/SP

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  3. Patrício, seus comentários são sempre motivadores. Grande abraço.

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