26 de janeiro de 2011

As mudanças tecnológicas e a Pastoral Urbana

O mundo está em permanente transição. Com a corrida tecnológica, a internet, cabos de fibra ótica e sofisticadas invenções cibernéticas, o globo terrestre tem se tornado mais uniforme e informado. A comunicação ultrapassou os limites geográficos e as distâncias continentais com a ascensão dos computadores mobiles, microprocessadores cada vez mais velozes, plataformas de internet sofisticadíssimas e invencionices científicas cada vez mais diversificadas. A Igreja evangélica brasileira, especialmente, também tem acompanhado esse momentum histórico mundial.

A Igreja também tem absorvido várias tecnologias, bem como as influências da contemporaneidade. Historicamente ela sempre acaba aspirando as mudanças culturais, políticas e agora, tecnológicas. Isso se torna evidente quando analisamos os períodos vividos no Brasil e as respostas dos movimentos evangélicos, por exemplo: no tempo da ditadura militar proclamava-se, mais enfaticamente, a parousia; sem preterir os fatos históricos mais antigos, da década de setenta até agora (2011) houveram substanciais alterações no modus operandi da Igreja. Talvez o movimento neo-pentecostal e suas idiossincrasias simbolizem essas absorvências com mais clareza, pois teve origem no pensamento pós-moderno. A pós-modernidade e seus sub-valores foi, sem dúvida, a maior responsável pelo surgimento de uma mentalidade evangélica utilitarista, pragmática e sincrética, bem como co-responsável pela confecção de teologias pobres e anti-exegéticas. Embora muitas interpretações dualísticas de alguns religiosos desprezem tais influências sociológicas separando a igreja do mundo, a Igreja está no mundo, faz parte dele e acompanha seu desenvolvimento histórico, sócio-cultural, político e não menos importante, tecnológico.

Diante de tais considerações poderíamos salientar várias assimilações, alterações na rotina pastoral e o quanto as mudanças tecnológicas desafiam a pastoral urbana, especialmente a pessoa do pastor urbano. Um dos desafios da pastoral urbana é contextualizar os ministérios bíblicos à realidade do cotidiano. Fazer leituras das realidades, dos tempos, da cidade e das pessoas a fim de que sejamos mais profícuos na pregação do Evangelho do Reino de Deus. Jorge Barro chama isso de exegese da cidade: “Precisamos também aprender a fazer exegese da cidade, para que a Palavra de Deus tenha sentido e pertinência às pessoas. ” Numa leitura superficial, mesmo sem a necessidade de uma pesquisa de campo minuciosa, é evidente a importância das ferramentas tecnológicas para o ministério pastoral urbano.

Torna-se cada vez mais comum a presença de equipamentos sofisticados nas igrejas, tais como: projetores, telão eletrônico, ar condicionado, aparelhos eletrônicos para sonoplastia de última geração, instrumentos musicais que utilizam processadores e microcomputadores, câmeras para monitoramento, TVs de plasma e até cartões magnéticos para controle da saída e entrada das pessoas. É comum a utilização de sites para a evangelização e divulgação de atividades, transmissão via satélite, mala direta eletrônica para a comunicação com os fiéis. Até as igrejas mais ortodoxas, com templos em arquitetura medieval aderem às novas tecnologias do mundo hodierno. Um exemplo disso é o visível contraste na 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Bauru entre arcaicidade e contemporaneidade. Seu templo em estilo arquitetônico gótico francês possui sala de multimídia, equipamento para divulgação dos cultos on-line, projeção com telão eletrônico, piano eletrônico além de vários outros aparelhos que aperfeiçoam as atividades eclesiásticas. E não é somente a igreja que absorve os benefícios da tecnologia.

O pastor rural é cada vez mais raro. Após o êxodo rural as grandes cidades tiveram um expressivo crescimento, juntamente com ele vieram os problemas sociais. Um exemplo clássico é a notória expansão do mercado de segurança eletrônica, batendo recordes de crescimento. Num Brasil quase 100% urbanizado, com o surgimento das grandes cidades e seus desafios, tais como: falta de segurança, isolamento pessoal, estresse, depressão, dentre outros, a pessoa do pastor urbano se tornou uma necessidade para a pregação do Evangelho de maneira eficaz. O pastor urbano não consegue viver privilégios que o pastor rural desfrutou no passado, tais como tempo hábil para dar atenção aos membros, igreja pequena e membros com relativo tempo para servir. O mundo mudou e com as alterações histórico-sociais vieram as tecnologias que facilitam ou não, as atividades pastorais.

O pastor urbano deve dominar inúmeras tecnologias para a execução de atividades do ministério. É cada vez mais comum a utilização de e-mails, em detrimento do telefonema para a comunicação com os membros. O celular se tornou um companheiro inseparável e o pastor pode ser encontrado em qualquer lugar. Programas para exegese (como o Bible Works), para a confecção de sermões, bíblias eletrônicas e softwares práticos para administração eclesiástica são cada vez mais utilizados por pastores que não andam sem o notebook. O computador se tornou uma ferramenta tão indispensável quanto a Bíblia. O carro possui GPS para facilitar a localização dos membros nas grandes cidades. As atividades pastorais têm sido profundamente influenciadas pelas novas tecnologias. O ostracismo do pastor urbano avesso à tecnologia pode prejudicá-lo no ministério. O mundo moderno não tolera mais pastores sem celular, desinformatizados e desconectados do mundo cibernético. O que Jesus faria em nosso lugar? Ele seria um pregador que polarizaria o mundo tecnológico e a igreja ou utilizaria das coisas do mundo para apresentar o Reino de Deus? Jesus demonizaria a tecnologia?

Ao analisar as parábolas do Mestre, nota-se que o Senhor Jesus Cristo utilizou-se das novidades do seu tempo, da cultura semita e das realidades do seu Sitz in lebem (lugar vivencial) para expor as verdades do Reino de Deus. Os quatro evangelhos apresentam a Jesus como um profundo intérprete das necessidades do seu tempo. O Sermão da Montanha, por exemplo, (Mateus 5 a 7) é também um modelo de pregação que assimila perfeitamente as coisas e realidades contextuais com a mensagem emitida, ou seja, a linguagem de Jesus é repleta de exemplos retirados da agricultura, da ordem política, do comportamento ético-moral do povo e da religiosidade da época. Jesus, modelo supra de comportamento pastoral, não desprezou a importância da cultura e dos costumes do povo, antes, compreendia que a conscientização do discípulo do Reino acontecia por meio das coisas simples cotidianas como ferramentas úteis para a pregação do Evangelho. Jesus utilizou-se das “tecnologias” e recursos do seu tempo, de maneira consciente, para a promoção do Reino de Deus, sem alterar a essência do Evangelho.

Sendo assim, as mudanças supracitadas servem para a reflexão sobre o comportamento do pastor urbano diante dos desafios do mundo presente. Felizmente ou não, a relevância das novidades tecnológicas é indiscutível. A Igreja deve se preparar para expor as verdades do Evangelho fazendo uso dos meios tecnológicos disponíveis. Seria uma desventura não fazer uso da velocidade proporcionada pelos meios tecnológicos para pregar a Palavra de Deus, mesmo com suas esquisitices. A comunicação do Evangelho precisa acompanhar as mudanças culturais, históricas e psicossociais sem receber suas influências maléficas. Esse talvez seja um dos maiores desafios da Pastoral urbana da igreja evangélica brasileira.


2 de janeiro de 2011

Lamento não é murmúrio ou reclamação!

Lm 3:17
Alongaste da paz a minha alma; esqueci-me do que seja a felicidade.

O lamento não põe em dúvida a soberania de Deus, o murmúrio sim. O Lamento não questiona os propósitos soberanos de Deus, a reclamação quer saber o porquê das coisas na tentativa de pressionar Deus na parede da incompreensão humana. A reclamação nos dirige em direção à ingratidão, insatisfação com os atos de Deus e falta de fé. A reclamação é auto-independente, enquanto o lamento é dependente de Deus. Precisamos aprender a lamentar como os profetas de Deus, denunciando o pecado e anunciando a justiça. Lamentar com humildade. Lamento como forma de expressão da oração sem hipocrisia e despida de presunção. Lamento dependente, lamento submisso e não obstinado.

Frequentemente somos tentados a reclamar das coisas, quando algo vai mal.

Precisamos aprender a lamentar e desaprender a murmurar.

Enquanto estivermos perguntando os “porquês” do sofrimento humano e nos contentarmos mesmo com o aparente silêncio divino, tudo bem.

O problema é quando a insatisfação toma o lugar da gratidão. Quando nos consideramos fiéis ou justos demais para sofrer. Torna-se um grande problema quando tentamos justificar o murmúrio com nossos argumentos banais, na esperança de sermos inatingíveis pelo sofrimento. A verdade é que a reclamação nos afasta de Deus, o lamento nos aproxima.

Deus conhece a nossa dor (Sl 139)! Sabe o quanto sofremos e se importa conosco. Não há motivos para criticar as permissões de Deus em nossas vidas, “pois todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus ...” (Rm 8:28), inclusive as experiências desagradáveis.

1 de janeiro de 2011

Homothumadon - Unanimidade esfervecida

"Assim que eles ouviram isso, adoraram todos juntos (unânimes) [homothumadon] a Deus, dizendo: ..." (At 4.24)

No verso supracitado a palavra ὁμοθυμαδόν (homothumadon = unânimes) tem forte significado. É utilizada por 10 vezes em Atos e 1 vez em Romanos, todavia, as traduções contemporâneas não conseguem exprimir o real significado e grandezas contidas no termo.


A palavra ὁμοθυμαδόν (homothumadon), etimologicamente significa mais que unanimidade. Homothumadon é composto por homo ("junto", "mesmo") e thymos ("enfurecer-se", "ferver", “violência não negativa”). Entender, então, essa palavra apenas no sentido de "unanimidade", como traduz a ARA (Almeida Revista e Atualizada) pode nos fazer perder o real significado.

Não há palavras na língua portuguesa que consigam exprimir uma violência passiva. Homothumadon expressa raiva sem o aspecto pejorativo da raiva. É enérgica, mas sem violência. Por nãos ser um termo exclusivamente teológico, é intenso e expressa as conjunturas das emoções, experiências humanas quando há confiança e autoridade, força e humildade, tudo ao mesmo tempo. Os aspectos empíricos de homothumadon geram intrepidez para pregar a Palavra e zelo pela obra de Deus.

Homothumadon não fala de uma unanimidade no sentido de apenas “estar juntos”. Mas uma união internalizada carregada de força, no poder do Espírito. Expressa humildade sem subserviência às mazelas do pecado, autoridade sem as contaminações da manipulação vigente nas estratégias dos déspotas hodiernos e nos ajuda na tarefa de seguir a Jesus.

Precisamos como Igreja estar mais “juntos”. Mas não é uma união ou unanimidade passiva, que se cala diante das injustiças, da letargia espiritual e falta de ânimo do nosso povo. Necessitamos de uma unanimidade com “fogo”, paixão, intrepidez e obstinação acompanhados, aparentemente paradoxalmente, de humildade, reconhecimento da soberania de Deus e fé em Jesus. Precisamos de pitadas generosas de homothumadon no ministério pastoral. Não podemos confundir coleguismo com homothumadon, muito menos alianças político-religiosas com esse termo carregado de fortes significados para a vida cristã.

É imprescindível que voltemos nossos olhos para a paixão missionária, a confiança na soberania de Deus e a fidelidade em seguir a Jesus, atributos presentes na igreja do primeiro século. Nossa força precisa ser restaurada, nossa humildade necessita ser revestida e nossa intrepidez, carecem de mais homothumadon. Seremos uma igreja mais aprazível aos olhos de Deus, mais influente na sociedade e mais dinâmica em sua fé se vivermos a plenitude dessa palavra e o que ela representa no Novo Testamento.

A Igreja de Atos dos apóstolos, historiada por Lucas, segue a Jesus humildemente, mesmo que alienada. Segue-o mesmo com as intempéries e ebulição daquele contexto político, religioso e social em que estava inserida. Essa igreja não se acovardou de sua missão em seguir a Cristo por que vivia a plenitude do significado de homothumadon.

De onde viemos, onde estamos e para onde vamos?

De onde Viemos?
Quando lemos a Bíblia ou estudamos História da Igreja, torna-se nítido que desde os longínquos princípios da história da humanidade, Deus vem concertando aquilo que o homem estragou. Foi assim nos tempos de Adão e Eva, de Noé e sua família, da caminhada do povo israelita pelo deserto sob a tutela de Moisés, dos profetas no período do Exílio e também nos tempos da perseguida Igreja do século I.
No IV século da nossa era, com a institucionalização da Igreja-Estado consolidada por Constantino, houve um desvio de conduta ético-moral, bíblico-teológica e espiritual da Igreja, fazendo com que a mesma passasse de perseguida para perseguidora daqueles que não se rendiam à pregação e aos ritos do Catolicismo Romano. Anos de escuridão se passaram até que no dia 31 de Outubro de 1517 Martinho Lutero, inconformado com o abuso das vendas de indulgências pela Igreja, afixou 95 teses na porta do castelo-igreja de Wittenberg questionando os abusos e os sufragários universais. Sob os pilares da Justificação pela Fé, da Salvação pela Graça e da Soberania de Deus: o cisma com o romanismo acontece! A partir daí, sem falar nos pré-reformadores, Deus levanta homens como Ulríco Zuínglio, Guilherme Farel, João Calvino, Jhon Nox e tantos outros que desencadearam o pensamento reformado para colocar a Igreja no centro da Vontade de Deus. Vejamos que nossa história está recheada de fatos onde Deus usa pessoas para colocar sua a Igreja nos trilhos da Sua vontade soberana.

Onde estamos?
Vivemos num tempo denominado pela maioria de Pós-modernidade. Onde as características mundanas do egocentrismo, pragmatismo e misticismo têm penetrado em nossas comunidades através dos movimentos do nosso tempo. Jean Baudrillard denominou nossa época de a “sociedade do espetáculo”. Julio Zabatiero, disse: “Os novos gostos litúrgicos, nas igrejas históricas traem a sedução da imaginação. A imagem apaixona, o espetáculo seduz mentes, corações e corpos, e imperceptivelmente a igreja se transforma em um imenso teatro coletivo.” O culto transforma-se em arrebatadora performance das coisas que se deveriam esperar. No espaço litúrgico se santificam as necessidades humanas de auto-realização, satisfação, consumo e conquistas do ser. Em meio a isso, os pastores da Igreja de Deus recebem o papel de catalisadores das expectativas dos atentos espectadores, pastores performáticos. Fala-se cada vez menos em vocação ministerial e cada vez mais em perfil pastoral, fala-se cada vez menos em salvação e cada vez mais em satisfação. Estamos vivendo num tempo de desafio. Precisamos repensar nossa vocação ministerial e eclesiástica para responder a nossa próxima pergunta:

Para onde vamos?
Acredito que para estarmos no centro da vontade de Deus precisamos refletir sobre o passado, questionar os modelos existentes no presente para nos preparar para o futuro. Se a igreja moderna já é obcecada por movimentos extraordinários completamente desconexos com a Palavra de Deus, tais como: unção do riso, unção do Leão, da Lagartixa, do suor do Bispo Valdomiro e outros animais ... o quê será da igreja do amanhã? Como será a caricatura da igreja idealizada por movimentos pós-modernos e que será para nossos filhos? Como será, de onde virá e quem será usado para concertar os erros cometidos pela igreja brasileira hodierna?

Ouvi uma frase na televisão que me chamou a atenção: “É melhor se sujar andando, do que morrer sentado.” Isto não significa que se sujar andando seja agir ou pensar moral e eticamente errado, mas correr riscos, suplantar as barreiras, desviar-se dos obstáculos e vencer desafios. Não podemos é ficar parados, esperando que tudo “caia do céu”. É necessário dizer: “Eis-me aqui, envia-me Senhor”!
Creio piamente, que O Senhor da Igreja quer levantar homens e mulheres como instrumentos proclamadores de um Evangelho sem barganha, de uma mensagem sem interesses e genuinamente bíblica. Aprendi que não podemos nos conformar com a mercantilização do Sagrado, com a indiferença e banalização da pregação missionária, com a negociação de princípios bíblicos e a supersatisfação das expectativas humanas em detrimento da negação do “Eu”, da proclamação da mensagem da Cruz e da Soberania de Deus.
Deveríamos fazer essas três perguntas como Igreja de Cristo, como igreja local e como indivíduos: De onde viemos? Onde estamos? Para onde vamos? Só assim, poderemos discernir sobre os erros e acertos da história, sobre os desafios do presente e os objetivos da futuridade. Afinal, não podemos ignorar as realidades passadas, presente ou futuras (apesar de o futuro pertencer ao Senhor), tornando as perguntas acima irrespondíveis.