31 de dezembro de 2010

JESUS NÃO SABIA LER OU ESCREVER? SABIA MAIS QUE ISSO ...

No dia 29 de novembro de 2010, o professor Alberto Consolaro, professor Titular da USP em Bauru-SP, escreveu um artigo no Jornal da Cidade, na coluna “Ciência no dia a dia” com o título: “Cérebro: precisa ser alfabetizado?”

Acredito que o Jornal da Cidade, contribuinte para formação de valores da sociedade, na prestação serviço transparente aos leitores, não nos deixará sem direito de resposta. Longe de deter a verdade absoluta, quero apenas contribuir e lançar luz sobre algumas obscuridades ressaltadas no texto redigido pelo estimado professor.

Caríssimo Sr. Professor Alberto Consolaro,

Vejo com bons olhos o objetivo geral do texto. O tema abordado é de extrema relevância para os nossos dias. Alguns argumentos que apresentou são, na minha opinião, bem fundamentados e equilibrados. Discutir política, inteligência, sabedoria e analfabetismo, é muito saudável. Todavia, professor, o senhor cometeu um grave erro. O Jesus histórico não deveria ter sido fonte para ilustrar seu artigo. Embora Jesus não precise de defesa, a sociedade merece algumas ponderações sobre o assunto. O senhor argumentou o seguinte no texto:

“Mas a bíblia sagrada em nenhum lugar descreve, cita ou demonstra, mesmo que indiretamente, a figura de Jesus lendo ou escrevendo. Sim, as evidências revelam nas escrituras sagradas que Cristo não sabia ler e nem escrever. O cristianismo deve quase toda a teologia a São Paulo, um leal discípulo de Jesus.” CONSOLARO

No início do artigo supracitado o senhor disse que é cristão. Imagino, portanto, que se consultar ao clérigo de sua paróquia (caso freqüente uma) ou a um cristão assíduo leitor da Bíblia, perceberá que suas considerações foram absurdas e obtusas. Nem a Bíblia com os livros deuterocanônicos, os apócrifos e pseudoepígrafos, ou a protestante, cujo cânon é reduzido, nem qualquer outra tradução que conheço, muito menos os manuscritos gregos podem estribar suas afirmações a respeito de Jesus, o Cristo. Até mesmo historiadores como Josefo, Tácito e outros do primeiro século não arriscaram fazer tais afirmações sobre Jesus. Os teólogos modernistas, nem mesmo os liberais se atreveram a afirmar tanta grosseria. Albert Schweitzer espantou o mundo teológico com a obra sobre O Jesus Histórico. Todavia, não se aventurou em questionar a escolaridade de Jesus. Alguns autores, como Eugene Peterson e Joachim Jeremias, chegaram a afirmar que Jesus teria crescido entre a comunidade dos Essênios, um grupo sectário judaico que formava profetas e vivia nas cavernas de Qunram, às margens do Mar Morto. Nessa comunidade Jesus teria lido e estudado inúmeros manuscritos do AT, já que era a cultura monástica da comunidade essênia.

Gostaria de saber as fontes consultadas para fazer tantas afirmações infundadas; que até agridem o Cristo histórico da fé dos cristãos. Apesar de o professor demonstrar respeito e admiração por Jesus e Sócrates, não diminui a superlatividade pejorativa dos seus argumentos e falta de conhecimento sobre o assunto. Jesus sabia ler e escrever e a Bíblia não apenas aponta esse fato indiretamente, mas diretamente também. São evidências que contradizem sua afirmação no texto em pauta.

Jesus sabia ler e escrever, com absoluta e inquestionável certeza!

Dos quatro idiomas conhecidos no primeiro século na região da Palestina, Hebraico, Aramaico, Grego e Latim, Jesus conhecia os três primeiros, já que o último era utilizado nos círculos políticos romanos e militares.

Jesus era Judeu, pois, seus pais, José e Maria, também eram. A criança judia aprendia e balbuciava as primeiras palavras da Toráh (instrução no hebraico). Geralmente, já estavam alfabetizadas no Hebraico aos 7 anos. Os judeus sempre foram rigorosos no ensino do Hebraico, pois é um idioma sagrado e obrigatório para todo judeu zeloso. Jesus não poderia deixar de falar e escrever em Hebraico, pois era seu idioma religioso.

Jesus falava e lia aramaico. Joachim Jeremias, um reconhecido exegeta católico, ensinou a respeito dos aramaísmos e hebraísmos, nos lábios de Jesus. Ele chegou a traduzir alguns textos gregos para o aramaico, afim de interpretar os significados das palavras proferidas por Jesus. Ainda afirmou o seguinte: “Deve-se dizer ainda mais exatamente, que a língua materna de Jesus é o dialeto Galileu do aramaico ocidental” . Por exemplo, no Evangelho de Mateus, escrito para uma comunidade de judeus cristianizados, utiliza-se de aramaísmos, hebraísmos e semitismos em abundância. Em Marcos, Evangelho mais primitivo e base para redação de Mateus, Lucas e João, Jesus utilizou palavras como: talitha qum (Mc 5,41), corbán (Mc 7,11), effatha (Mc 7,34), geenna (Mc 9,43), abbá (Mc 14,36), Eloí, Eloí, ¿lemá sabactháni? (Mc 15,34), ou dos seus interlocutores: rabbuni (Mc 10,51) que provam o domínio desse idioma. O Aramaico era o dialeto coloquial naquele tempo, era o comumente falado e escrito por Jesus e os discípulos.

Jesus, provavelmente também conhecia o Grego. Naquele tempo, esse idioma era utilizado na política e no comércio, sobretudo na filosofia pós-socrática nos meios escolásticos. Após o domínio de Alexandre, o Grande, a Palestina tornou-se palco da cultura, pensamento e idioma grego. O Novo Testamento foi redigido e transmitido nessa língua. Jesus precisaria conhecer o dialeto, por exemplo, para dialogar com Pilatos.

Jesus fora reconhecido como Rabi (Mestre) em vários textos Bíblicos. No judaísmo, o Rabi é alguém que conhece as Escrituras do AT e ainda, a tradição rabínica. Embora Jesus não pertencesse a algum grupo sectário judeu, tais como o dos Fariseus, Saduceus ou Zelotas, conhecia profundamente os textos do Antigo Testamento, a Toráh. No Evangelho de Lucas, capítulo 4, versos de 15 a 20 se lê a respeito de Jesus:

15 Ensinava nas sinagogas deles, e por todos era louvado.
16 Chegando a Nazaré, onde fora criado; entrou na sinagoga no dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.
17 Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías; e abrindo-o, achou o lugar em que estava escrito:
18 O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos,
19 e para proclamar o ano aceitável do Senhor.
20 E fechando o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e os olhos de todos na sinagoga estavam fitos nele.

Ainda há inúmeros textos para comprovar Jesus lendo fluentemente, alguns foram citados verbalmente por ele, já memorizados. Por exemplo, João 8, 6 e 8 narra Jesus escrevendo no chão, com o dedo. Jesus não apenas lia e escrevia, bem como trouxe interpretação correta dos textos antigos. Jesus é a Palavra encarnada, o verbo em carne, feito história entre nós e seu exemplo, seu comportamento e seus ensinos são provas de sua messianidade e divindade. Jesus não precisaria saber ler e escrever para ser admirado por todos, entretanto ele sabia e muito bem. Embora não queira apenas ser admirado ou usado como amuleto para passar num concurso, Jesus quer ser seguido por verdadeiros cristãos.

Portanto, com muita probabilidade, Jesus não era apenas alfabetizado, como também trilíngue.

Outra afirmação quase desacertada do professor foi “... O cristianismo deve quase toda a teologia a São Paulo, um leal discípulo de Jesus”

É certo que o Apóstolo Paulo foi o maior autor do Novo Testamento. Suas cartas e textos são de incontestável contribuição teológica. E é verdade que quase toda a teologia Cristã tem base nos escritos paulinos. Todavia Paulo não foi apenas um “leal discípulo de Jesus” – aliás, ele nem foi um dos doze. Discípulo no sentido de seguidor e testemunha ocular da vida e ministério de Jesus, não o foi. Paulo teve visões e encontros com Jesus, mas bem depois da ressurreição. O que se pode afirmar, com certeza, é que Paulo foi Apóstolo (Enviado com autoridade, no grego.). As suas cartas começam afirmando seu apostolado, mas foi chamado para sê-lo, após um encontro sobrenatural com o Senhor, de acordo com Atos cap. 9. No sentido teológico, todos devemos ser discípulos (seguidores) de Jesus.

Enfim, gostaria de agradecer ao senhor pela contribuição ao Jornal da Cidade, que na intenção de promover reflexão sobre assuntos importantes para a atualidade acabou fomentando esse diálogo. Mesmo que cometendo um deslize nas informações prestadas sobre Jesus. Não é mero criticismo da minha parte. A sociedade não pode absorver apenas uma opinião sobre o assunto. A pluralidade, o espírito crítico e a discussão sobre a questão levantada, certamente gera conscientização e esclarecimentos aos distintos leitores.

Que Jesus seja mais que admirado. Seja seguido, amado e adorado como Salvador do mundo, Senhor das eras e governador do Universo!