31 de outubro de 2008

Silêncio


O silêncio é o idioma de Deus! Por muitas vezes Deus se cala e não compreendemos esse fenômeno. Deus fala através do silêncio, mas o ser humano também diz muito ao silenciar-se.
O grito de sofrimento do ser humano pode ser expressado através do silêncio. Ele fala de uma linguagem desconhecida do ser humano, pois queremos falar sempre. A Bíblia nos constrange ao dizer: “Calem-se diante dele toda a terra”. O silêncio é o megafone que fala dos nossos sofrimentos aos ouvidos de Deus. Silenciamos e Deus nos ouve. Dificilmente o ser humano conseguiria ficar muito tempo calado, apenas ouvindo. O silêncio nos incomoda porque ele é silencioso, mas verbaliza muitas coisas. O silêncio significa quietude e sua mensagem é a respeito da mansidão, dos pastos verdejantes e de Deus, pois nos calamos para deixar Deus falar. Quando nos colocamos à disposição do silêncio, sabemos ouvir. Ouvir no silêncio parece um paradoxo complexo, visto que na lógica humana só se ouve quando alguém fala. O exercício fonoaudiológico de Deus se dá ao contrário: Ele fala no silêncio e nós ouvimos o som da afonia, que é a sua voz. A voz de Deus não deve ter som de trovões, águas ou estrondos, mas a melodia suave e acalentadora nos ouvidos humanos.
A piedade que preza pela espiritualidade sadia encara o silêncio como ponto de partida para um relacionamento feliz. Deus escuta o gemido da criação quando o sofrimento a faz gritar pela paz do silêncio. Silêncio é ausência de guerra, é o som agradável do nada que significa tudo! Enfim, Silêncio é a mais bela melodia do Maestro Supremo. O silêncio é a música do céu. Os surdos são privilegiados e não deficientes, pois são presenteados com a graça do silêncio. Nem todos os mudos conseguem ouvir, mas todos sabem que é mais fácil do que falar, por isso Deus nos deu dois ouvidos: para usá-los mais do que a boca. O silêncio fala no vácuo do universo que Deus é criador supremo, assim como a Criação ”no princípio” revelava que tudo que Ele faz é bom, como o silêncio o é! Já estamos atordoados com a turbulência do mundo pós-moderno, por isso Deus nos chama ao jardim do silêncio. Lá não há gemido, não existe choro, não há lamento pela morte, mas se faz presente a paz que o silêncio promove. No céu existe louvor e cantoria, mas existe o silêncio para ouvir as queixas do ser humano. Só posso silenciar, se aquietar primeiro meus pensamentos. Para Deus existe o silêncio sem preocupações, mas para o ser humano não há preocupações sem o silêncio, pois é preciso murmurar quando algo vai mal. Portanto, os ouvidos de Deus se transformam numa descarga de inquietações, desesperos e murmúrios, quando deveria acontecer o contrário: deveriam ser os recepcionistas do louvor, da gratidão e do silêncio.
O profeta Elias procurou a Deus no barulho do forte vento, na turbulência do terremoto, na alta temperatura e fervor do fogo, mas Deus não foi encontrado, pois Ele estava presente numa voz mansa e delicada. Muitos procuram a Deus no barulho que aparentemente o apresentam, mas Deus prova estar na articulação tranqüila do silêncio. Por causa dos tropeços na calçada da história, desacertos no alvo da justiça e poluições na mente humana, aparenta-nos um Deus calado e indiferente com a situação de caos em que vive o mundo. Na verdade, os barulhos “conseguiram” esconder a voz de Deus. As cordas vocais de Deus “foram cortadas” quando o ser humano quis usar o discurso do orgulho, da soberba e do individualismo e os estigmas do pecado conseguiram marcar os tímpanos dos piedosos. O homo sapiens sapiens já é tão “sapiens” e possui tanto conteúdo, que não consegue mais falar pouco, ele tem a necessidade de expressar seus discursos inteligíveis ao mundo e até a Deus, perdeu a capacidade de ouvir, trocou a virtude do taciturno pela falácia. Paramos de segredar aos ouvidos de Deus para berrar ao mundo as nossas queixas. Não temos coragem para ficar calados, pois a concepção de coragem atual é a dos que gritam mais alto. O barulho dos canhões bélicos tornou-se comum aos nossos ouvidos. A emissão de notícias de matança cauterizou nossas mentes e audição. Não nos chocamos mais e acabamos por permitir que os rumores atuais falem mais do que Deus. Ao mesmo tempo que é importante silenciar, também é ouvir. Ouvimos o gemido da dor da criação e o levamos até Deus. Ouvimos a fome dos famintos e pedimos pão a Deus. Escutamos falar de guerra e pedimos paz a Deus! Discernimos o sofrimento daqueles que não ouviram o Evangelho e o levamos a té Deus em oração contemplativa. E podemos dizer tudo isso a Deus através do segredado e monástico: Silêncio!

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